Uma ‘armadilha’ nos indicadores

Como se calcula a linha de pobreza?

Dizer que uma pessoa em Portugal é pobre quando vive com menos de 422 euros por mês não parte de um estudo real sobre os gastos médios de uma família, sobre o valor de uma renda ou sobre os preços de produtos alimentares num supermercado. Essa linha é definida a partir do rendimento mediano do país e esse valor pode ir oscilando de ano para ano. Por exemplo, se os rendimentos caem no país – como aconteceu nos últimos anos de crise – esse valor mediano poderá cair. Mas, independentemente disso, a linha de pobreza é calculada sempre da mesma forma: representa 60% do rendimento mediano.

Num país como a Dinamarca, ser pobre é viver com menos de 1389 euros por mês (que correspondem a 60% do rendimento mediano dos dinamarqueses). Na Finlândia, essa linha é de 1185 euros enquanto na Roménia o rendimento mediano é tão baixo que os 60% equivalem a 110 euros por mês. Ser pobre na Roménia é, por isso, viver com menos de 110 euros por mês.

O que aconteceu em Portugal é que entre 2009 e 2014 a linha de pobreza baixou.Enquanto no início da crise uma pessoa que vivesse com menos de 434 euros mensais era considerada pobre, em 2014, já não é – mesmo que os seus rendimentos não tenham mudado ao longo desse tempo ou que até tenham descido. Em 2014 ser pobre era viver com menos de 422 euros mensais. Para um casal com dois filhos menores este limiar desceu de 911 para 886 euros.

Qual o problema? É que muitas pessoas ou famílias que anteriormente eram considerados pobres ‘abandonaram’ a situação de pobreza apenas porque o limiar baixou.

É por essa razão que existe uma outra forma de olhar para a evolução da pobreza: fixando a linha num determinado ano. Se virmos como é que evoluiu o risco de pobreza entre os portugueses tendo como ponto em comum a linha de pobreza de 2009, a leitura é diferente. Assim, entre 2009 e 2014 a pobreza passou de 17,9% para 24,2%, englobando um quarto da população portuguesa. “Este valor traduz de forma mais realista a alteração efetiva das condições de vida das famílias mais carenciadas no decorrer da crise. E significa igualmente que cerca de 2,5 milhões de portugueses se encontravam em situação de pobreza em 2014”, conclui o estudo.

Ler mais